Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2016

LUGAR DE MEMÓRIAS

1.Convento de São Bento da Ave-Maria.Roda.jpg

O convento de S. Bento da Ave-Maria, no Porto, foi um edifício que albergou freiras beneditinas e que funcionou entre 1535 e 1892. Demolido no final do século XIX, por morte da última monja, no local onde existia foi construída a Estação de S. Bento, onde, em 1896, numa gare ainda provisória, entrou o primeiro comboio. Conta a lenda que, ainda hoje, se ouvem as rezas da monja a ecoar pelos corredores da estação.

2.Convento de São Bento da Ave-Maria.jpg

Em 1518, D. Manuel I, que no ano anterior outorgara foral à cidade do Porto, mandou construir, à custa da Fazenda, o Mosteiro da Ave-Maria ou da Encarnação das Monjas de S. Bento, dentro dos muros da cidade, no local chamado das Hortas do Bispo, em terrenos cedidos pelo bispo do Porto, D. Pedro da Costa, para que as religiosas se transferissem dos mosteiros rurais para as cidades.

Tendo como primeira abadessa, D. Maria de Melo, monja de Arouca e regedora do Mosteiro de Tarouquela, o convento iniciou a vida conventual em Janeiro de 1535, recolhendo as comunidades vindas dos mosteiros de S. Cristóvão de Rio Tinto, Salvador de Tuías, Salvador de Vila Cova das Donas (Sandim) e de Santa Maria de Tarouquela.

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O projecto incluía também as monjas do Salvador de Vairão, mas estas recusaram a transferência, sendo que, mais tarde, recebeu ainda algumas freiras de um extinto mosteiro em Macieira de Sarnes.

Em 1596, de acordo com o estabelecido com a Congregação de S. Bento, dois terços dos rendimentos do Mosteiro de S. Martinho de Cucujães foram unidos ao de S. Bento.

Vários testemunhos referem-se ao convento como sendo “magnificente em termos decorativos”, onde terá predominado, inicialmente, o estilo manuelino. Assim, supõe-se que, quer a igreja anexa quer o convento, tenham sofrido diversas transformações ao longo dos anos, sendo as últimas motivadas por um incêndio que terá deflagrado em 1783.

Na altura da demolição, em 1901, da traça primitiva restava apenas um arco manuelino.

 

Liberalismo e extinção das ordens religiosas

Com a afirmação do Liberalismo, em inícios do século XIX, o futuro do convento ficara traçado.

De acordo com a Direcção Geral de Arquivos, em 1834, em 1834, no âmbito da “Reforma Eclesiástica” empreendida pelo ministro e secretário de Estado, Joaquim António de Aguiar, e executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837), por decreto de 30 de Maio, “foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e ordens religiosas”, ficando, o de S. Bento da Ave-Maria, sujeito ao respectivo bispo, até à morte da última freira, altura em que encerraria definitivamente, passando os seus bens para a esfera do Estado. Como esta terá falecido em 1892, ficaram as instalações devolutas a partir dessa altura, sendo que se contam várias histórias que relatam que, em certas noites, ainda era possível ouvir as rezas da monja a ecoar pelos corredores das alas da estação.

A demolição dos claustros iniciou-se em 1894 – dando lugar à gare provisória da estação que começou a funcionar em 1896 com a chagada do primeiro comboio – e a da igreja entre 1900 e 1901.

As ossadas das monjas foram recolhidas num túmulo mandado construir no cemitério do Prado do Repouso pela Câmara Municipal do Porto, em 1894.

Muito do seu espólio perdeu-se por altura da demolição, incluindo uma grande variedade de azulejos-tapete.

 

 “Ah, malditos reformadores!”

Frase célebre de Alexandre Herculano, que demonstrava bem a sua opinião sobre a destruição deste monumento.

4.Convento de São Bento da Ave-Maria.jpg

1896: inauguração da Linha Urbana do Porto

Numa altura em que o automóvel adquiria contornos de verdadeiro luxo, o comboio surgiu como uma excelente alternativa.

O mês de Novembro de 1877 iria mudar o panorama das ligações de caminho-de-ferro entre o Norte e o Sul do país – a inauguração da Ponte D. Maria I, sobre o Douro, aproximaria as cidades de Lisboa e Porto. 

A criação de uma estação, no centro da cidade, impunha-se, faltando apenas definir o local e, uma vez que o convento se encontrava em estado de degradação, a Câmara aprovou o projecto.

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Em Janeiro de 1888, a Direcção dos Caminhos-de-Ferro foi autorizada a estudar o prolongamento da linha de Campanhã até à Praça da Liberdade.

Assim se procedeu à abertura dos túneis da Quinta da China, do Monte do Seminário e das Fontainhas, cuja abertura ditou a demolição do mosteiro, dando lugar à construção de uma gare provisória, onde o primeiro comboio entraria em 7 de Novembro de 1896, estendendo, assim, a denominada Linha Urbana do Porto, já em funcionamento entre as estações das Devesas e de Campanhã.

O serviço dos comboios suburbanos portuense oferecia ligações frequentes a partir de S. Bento, que inicialmente funcionava num edifício bem menor até à construção do actual, da autoria do arquitecto Marques da Silva, inaugurado em 1916. 

Em 1897, a Companhia Real e os Caminhos-de-Ferro do Estado – Direcção do Minho e Douro, assinavam um contrato para a circulação dos comboios da Companhia Real entre S. Bento e Campanhã.

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A Estação de S. Bento

O nome resultou da ocupação dos terrenos do convento. Nas obras para a sua construção, bem como na remodelação da zona envolvente, descobriu-se que, no subsolo da Praça de Almeida Garrett, circulava o rio da Vila que resulta da junção de dois ribeiros: um oriundo da Praça do Marquês, outro do Bolhão.

Em Agosto de 1915, foram colocados os painéis de azulejos na nova estação, num total de 551 metros quadrados, cada um representando uma cena da história nacional: o Torneio de Arcos de Valdevez, em 1140; a entrada triunfal de D. João I e o seu casamento com D. Filipa de Lencastre, no Porto em 1386; e a conquista de Ceuta, em 1415.

Nos outros encontram-se cenas e aspectos etnográficos de outros locais e, no alto das paredes, existe um friso multicolor, evocativo da história da viação nacional, desde os primórdios até à chegada do primeiro comboio a Braga.

As laterais do edifício, concebido em forma de U, dão para as ruas da Madeira e do Loureiro, e a fachada principal está virada para a Praça Almeida Garrett.

Pela Rua da Madeira, descia a Muralha Fernandina, vinda de Cimo de Vila, tendo a estação “dentro dos muros”. Ainda famosa pelas suas “tasquinhas”, foi local de comércio e de pequenas fábricas, onde se fixaram, também, muitos despachantes, a quem chamavam de recoveiros, que aceitavam mercadorias que transportavam em vagões alugados aos caminhos-de-ferro, para localidades ao longo das linhas do Douro e Minho. Aos paquetes e serviçais das empresas portuenses que utilizavam os seus serviços, pagavam “um copo e uma sandes” ou até “uma posta de sável” no “Quim”, no “Vizeu” ou no “Madeira”, nas imediações dos escritórios.

7.Estação de S. Bento.jpg

No interior, o edifício integra uma gare com oito linhas e cinco cais de armazenamento de mercadorias, cobertos por uma artística estrutura metálica.

A estação foi considerada uma das mais belas do mundo pela revista norte-americana Travel+Leisure.

Os painéis de azulejo de Jorge Colaço colocaram-na ao nível de outras gares ferroviárias famosas. Como a Gare du Nord, em Paris; e Atocha, em Madrid.

 

Texto de Marta Almeida Carvalho

REVISTA VIVA, Junho 2013

 

publicado por Elisabete às 15:48

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