Sábado, 11 de Março de 2017

OS TRIPEIROS E PEDRO SEM

Os Tripeiros e Pedro Sem.JPG

Ramalho Ortigão, no tomo inicial de As Farpas, declara: No fundo das suas convicções políticas e sociais, o portuense é verdadeiramente patuleia… gloria-se de ser tripeiro e articula esta palavra rijamente. Então, os portuenses têm orgulho na alcunha de tripeiros? Ora por quê? Por duas razões, mediando entre elas nada menos que 31 anos. Parece misterioso, mas recuemos a 1384, quando Rui Pereira organiza no Porto uma armada de 17 naus e 17 galés e ruma a Lisboa, para acabar com o cerco dos castelhanos e acudir a uma população faminta. A armada levava não só marinheiros e soldados como mantimentos. Praticamente toda a carne que havia entre muralhas no Porto, que os da velha cidade entenderam contentar as suas mesas à conta das tripas, que cozinhavam com feijões. O resto das carnes apareceu só quando se estabilizou a vida nacional. Os portuenses ganharam o gosto às tripas e, uma comida de emergência tornou-se um petisco e um prato de substância. Aliás, só os estômagos fracos e sensibilidades exageradas afastam o prato. E o tom pejorativo da alcunha apareceu já em fase de calma histórica, digamos assim.

A segunda e decisiva vez já foi em 1415. Os calafates da beira-rio trabalhavam rijamente na aparelhagem de mais umas quantas naus e multiplicavam-se os boatos sobre o destino das mesmas. Que eram uns príncipes que iam casar a Nápoles, que era o rei João apontando a visitar a Terra Santa, que a princesa assim, que não se sabia mais quê. Boataria.

À maneira, como convinha. Até que o jovem Infante D. Henrique manda chamar o seu fiel Mestre Simão, que dirigia os estaleiros. Pedindo-lhe o máximo sigilo, confiou o Infante ao seu velho amigo que essas naus em construção se destinavam à conquista de Ceuta. Mestre Simão, que já participara na armada que libertara Lisboa, sabia que o que se pedia não era apenas o cumprimento de prazos na entrega das embarcações, era o próprio abastecimento. E de novo o Porto se comprometeu a voltar a comer tripas por obrigação. E o epíteto, muitas vezes incompreendido para os de fora e para alguns de dentro, tornou-se uma medalha de patriotismo.

Bem, mas uns escrevem com S outros com C, mas será com S. Pedro Sem e não Pedro Cem. O homem vivia naquela torre hoje adossada ao antigo paço episcopal. Era rico, usurário e tinha pena de não ser nobre. Mas um dia arranjou um expediente através de um nobre arruinado a quem saldaria a dívida se o outro lhe desse a filha em casamento. Deu, seja: vendeu-a assim. E em plena boda, num belo dia de sol, foi anunciada a chegada dos seus barcos vindos do Oriente, carregados de riquezas. Pedro levou os convidados à varanda para verem chegar as suas naus à foz do Douro.

E suspirou que Deus o poderia empobrecer. Naquele instante, produziu-se uma tempestade tamanha que estragou a festa. Os barcos, um a um, afundaram-se. E toda a gente fugiu de ao pé dele, assustadíssima.

Reconheceram-no, tempos depois, mendigando pelas ruas da antiga baixa portuense, estendendo a mão à caridade pública:

- Uma esmolinha para o Pedro Sem, que já teve muito e agora nada tem!

 

VIALE MOUTINHO, “Lendas de PORTUGAL”

 

publicado por Elisabete às 23:02

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Domingo, 5 de Março de 2017

A HISTÓRIA DO PORTO

AS ORIGENS do Porto são tema de laboriosas cogitações. A minha maneira de ver é que, aqui como sempre, o melhor é fazer como os magistrados ordenam que se faça nos tribunais: dizer toda a verdade. Ora, a verdade sobre o nascimento do Porto é esta: silêncio completo dos geógrafos romanos, aparecimento de um bispo do Porto (aliás de Portucale) em vários concílios visigóticos do século VI depois de Cristo, vida obscura nas centúrias seguintes (e dessa obscuridade não se exceptua sequer o erudito Vímara Peres, lembrança tão frágil com monumento tão sólido no Bairro da Sé) e, finalmente, no ano de 1120, a grande data triunfal – a condessa D. Teresa deu o burgo do Porto, em feudo, ao bispo D. Hugo.

Chamo a 1120 uma data triunfal porque é a primeira vez que ouvimos falar de um Porto-burgo, uma cidade que se não confunde com a paróquia sueva Portucale, governada por um bispo. Esse burgo terá nascido como nasceram as outras grandes cidades do séc. XII, que é o século das cidades: o comércio activava-se, os navios dos mares do Norte navegavam para os portos do Sul, o grande pulmão económico do Mediterrâneo estendia tentáculos para avaliar as riquezas do Norte e a foz do rio Douro começava a servir de escala ideal para a navegação.

004.jpgO Porto numa gravura mandada publicar, em 1736, pelo parlamento britânico

A antiga Gaia não proporcionava abastecimento de água nem de carne, nem sequer era uma posição favorável para poupar as amarras à força das nortadas. E, por isso, à medida que o tráfico se intensificava, os navios iam ficando em frente à Ribeira, e é aí que vão morar tanoeiros, calafates, mercadores, cuja vida depende do abastecimento das embarcações.

Arrisco a hipótese de serem dessa época as primeiras “tripas”: toda a região era e continua a ser de grande riqueza pecuária, e era ali que os capitães dos navios compravam os bois, o sal e as barricas e mandavam fazer provisões para as longas viagens. E os talhantes sabiam tão bem como nós que as vísceras não aguentam a conserva do sal, e por isso as retiravam e deitavam fora, ou vendiam por qualquer preço. O facto de as vísceras das reses terem entrado na alimentação local tão permanentemente, levando a chamar tripeiros aos moradores, é um indício indiscreto da importância essencial desse comércio.

Mas 1120 era, no Noroeste peninsular, um péssimo ano para uma cidade nascer. Um cronista da época, a quem chamamos o “anónimo de Sahagun”, por estar relacionado com o mosteiro de Sahagun e não sabermos como se chamava, faz uma descrição aterradora desses tempos: os moradores das cidades revoltavam-se contra os seus senhores, incendiavam-lhes as casas, chacinavam-lhes as famílias e exigiam que a independência do burgo fosse reconhecida.

Bem pouco antes, em 1116-1117, uma revolta dessas incendiara Compostela, e a rainha D. Urraca, irmã de D. Teresa, vira-se apedrejada pela gentalha e estivera em riscos de perder a vida. As forças feudais acabaram, com dificuldade, por restabelecer a ordem e impor a autoridade do arcebispo.

Isto faz compreender, sem maior comentário, porque é que a condessa D. Teresa, pouco depois, deu ao burgo nascente, em feudo, ao bispo. Melhor é prevenir do que remediar (não sabemos, aliás, o que se passara antes da entrega do burgo ao prelado). Mas é certo que foi o bispo quem, em 1123, concedeu o primeiro foral aos burgueses da cidade. Este intervalo de três anos é um indício de que já então existiria a tensão que, nos períodos seguintes, levou a graves conflitos entre a população e a Sé, e que ao longo de toda a História nacional opôs o Porto ao Poder. Um dos factos mais significativos da evolução da capital do Norte é que nunca tenha sido permitido aos reis de Portugal edificar ali uma casa para morar.

 

Estas origens condizem e, até certo ponto, explicam o destino histórico da cidade, que foi sempre de resistência ao Poder e de luta pela liberdade. Para falar só nos tempos modernos, recordo que foi no Porto que:

 

-deflagrou a revolução de 1820, que implantou o regime liberal em Portugal.

-se fez revolução de 1828 -que tentou em vão impedir o regresso ao absolutismo.

-se instalou D. Pedro, fortemente apoiado pelas forças económicas da cidade.

-funcionou durante meses o governo da Patuleia, só vencido pela intervenção

estrangeira.

-eclodiu, em 1891, a primeira revolta republicana.

005.jpgAspecto do Porto no século passado

 

Nos tempos modernos, a cidade cresceu com a actividade económica nacional.

Povoados outrora distantes, como a Póvoa e Vila do Conde, são hoje grandes zonas residenciais do arrabalde portuense.

E quanto a Vila do Conde, continua por achar a resposta à inevitável pergunta: que conde foi esse? Não foi decerto o fundador pois a terra foi citânia céltica, castro romano, aldeia sueva e, então, não havia condes.

Admite-se, sem certeza alguma, que a terra foi dominada por algum barão astur-leonês, que tenha andado nas guerras da Reconquista. Dessa época nada resta. Vale a pena visitar os monumentos, aspirar o ar do estaleiro, descer o rio até à barra. Este vale do Ave é uma constante fascinação paisagística.

007.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

Guia Expresso das
Cidades e Vilas Históricas de Portugal

publicado por Elisabete às 16:59

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