Sábado, 11 de Março de 2017

OS TRIPEIROS E PEDRO SEM

Os Tripeiros e Pedro Sem.JPG

Ramalho Ortigão, no tomo inicial de As Farpas, declara: No fundo das suas convicções políticas e sociais, o portuense é verdadeiramente patuleia… gloria-se de ser tripeiro e articula esta palavra rijamente. Então, os portuenses têm orgulho na alcunha de tripeiros? Ora por quê? Por duas razões, mediando entre elas nada menos que 31 anos. Parece misterioso, mas recuemos a 1384, quando Rui Pereira organiza no Porto uma armada de 17 naus e 17 galés e ruma a Lisboa, para acabar com o cerco dos castelhanos e acudir a uma população faminta. A armada levava não só marinheiros e soldados como mantimentos. Praticamente toda a carne que havia entre muralhas no Porto, que os da velha cidade entenderam contentar as suas mesas à conta das tripas, que cozinhavam com feijões. O resto das carnes apareceu só quando se estabilizou a vida nacional. Os portuenses ganharam o gosto às tripas e, uma comida de emergência tornou-se um petisco e um prato de substância. Aliás, só os estômagos fracos e sensibilidades exageradas afastam o prato. E o tom pejorativo da alcunha apareceu já em fase de calma histórica, digamos assim.

A segunda e decisiva vez já foi em 1415. Os calafates da beira-rio trabalhavam rijamente na aparelhagem de mais umas quantas naus e multiplicavam-se os boatos sobre o destino das mesmas. Que eram uns príncipes que iam casar a Nápoles, que era o rei João apontando a visitar a Terra Santa, que a princesa assim, que não se sabia mais quê. Boataria.

À maneira, como convinha. Até que o jovem Infante D. Henrique manda chamar o seu fiel Mestre Simão, que dirigia os estaleiros. Pedindo-lhe o máximo sigilo, confiou o Infante ao seu velho amigo que essas naus em construção se destinavam à conquista de Ceuta. Mestre Simão, que já participara na armada que libertara Lisboa, sabia que o que se pedia não era apenas o cumprimento de prazos na entrega das embarcações, era o próprio abastecimento. E de novo o Porto se comprometeu a voltar a comer tripas por obrigação. E o epíteto, muitas vezes incompreendido para os de fora e para alguns de dentro, tornou-se uma medalha de patriotismo.

Bem, mas uns escrevem com S outros com C, mas será com S. Pedro Sem e não Pedro Cem. O homem vivia naquela torre hoje adossada ao antigo paço episcopal. Era rico, usurário e tinha pena de não ser nobre. Mas um dia arranjou um expediente através de um nobre arruinado a quem saldaria a dívida se o outro lhe desse a filha em casamento. Deu, seja: vendeu-a assim. E em plena boda, num belo dia de sol, foi anunciada a chegada dos seus barcos vindos do Oriente, carregados de riquezas. Pedro levou os convidados à varanda para verem chegar as suas naus à foz do Douro.

E suspirou que Deus o poderia empobrecer. Naquele instante, produziu-se uma tempestade tamanha que estragou a festa. Os barcos, um a um, afundaram-se. E toda a gente fugiu de ao pé dele, assustadíssima.

Reconheceram-no, tempos depois, mendigando pelas ruas da antiga baixa portuense, estendendo a mão à caridade pública:

- Uma esmolinha para o Pedro Sem, que já teve muito e agora nada tem!

 

VIALE MOUTINHO, “Lendas de PORTUGAL”

 

publicado por Elisabete às 23:02

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Domingo, 5 de Março de 2017

A HISTÓRIA DO PORTO

AS ORIGENS do Porto são tema de laboriosas cogitações. A minha maneira de ver é que, aqui como sempre, o melhor é fazer como os magistrados ordenam que se faça nos tribunais: dizer toda a verdade. Ora, a verdade sobre o nascimento do Porto é esta: silêncio completo dos geógrafos romanos, aparecimento de um bispo do Porto (aliás de Portucale) em vários concílios visigóticos do século VI depois de Cristo, vida obscura nas centúrias seguintes (e dessa obscuridade não se exceptua sequer o erudito Vímara Peres, lembrança tão frágil com monumento tão sólido no Bairro da Sé) e, finalmente, no ano de 1120, a grande data triunfal – a condessa D. Teresa deu o burgo do Porto, em feudo, ao bispo D. Hugo.

Chamo a 1120 uma data triunfal porque é a primeira vez que ouvimos falar de um Porto-burgo, uma cidade que se não confunde com a paróquia sueva Portucale, governada por um bispo. Esse burgo terá nascido como nasceram as outras grandes cidades do séc. XII, que é o século das cidades: o comércio activava-se, os navios dos mares do Norte navegavam para os portos do Sul, o grande pulmão económico do Mediterrâneo estendia tentáculos para avaliar as riquezas do Norte e a foz do rio Douro começava a servir de escala ideal para a navegação.

004.jpgO Porto numa gravura mandada publicar, em 1736, pelo parlamento britânico

A antiga Gaia não proporcionava abastecimento de água nem de carne, nem sequer era uma posição favorável para poupar as amarras à força das nortadas. E, por isso, à medida que o tráfico se intensificava, os navios iam ficando em frente à Ribeira, e é aí que vão morar tanoeiros, calafates, mercadores, cuja vida depende do abastecimento das embarcações.

Arrisco a hipótese de serem dessa época as primeiras “tripas”: toda a região era e continua a ser de grande riqueza pecuária, e era ali que os capitães dos navios compravam os bois, o sal e as barricas e mandavam fazer provisões para as longas viagens. E os talhantes sabiam tão bem como nós que as vísceras não aguentam a conserva do sal, e por isso as retiravam e deitavam fora, ou vendiam por qualquer preço. O facto de as vísceras das reses terem entrado na alimentação local tão permanentemente, levando a chamar tripeiros aos moradores, é um indício indiscreto da importância essencial desse comércio.

Mas 1120 era, no Noroeste peninsular, um péssimo ano para uma cidade nascer. Um cronista da época, a quem chamamos o “anónimo de Sahagun”, por estar relacionado com o mosteiro de Sahagun e não sabermos como se chamava, faz uma descrição aterradora desses tempos: os moradores das cidades revoltavam-se contra os seus senhores, incendiavam-lhes as casas, chacinavam-lhes as famílias e exigiam que a independência do burgo fosse reconhecida.

Bem pouco antes, em 1116-1117, uma revolta dessas incendiara Compostela, e a rainha D. Urraca, irmã de D. Teresa, vira-se apedrejada pela gentalha e estivera em riscos de perder a vida. As forças feudais acabaram, com dificuldade, por restabelecer a ordem e impor a autoridade do arcebispo.

Isto faz compreender, sem maior comentário, porque é que a condessa D. Teresa, pouco depois, deu ao burgo nascente, em feudo, ao bispo. Melhor é prevenir do que remediar (não sabemos, aliás, o que se passara antes da entrega do burgo ao prelado). Mas é certo que foi o bispo quem, em 1123, concedeu o primeiro foral aos burgueses da cidade. Este intervalo de três anos é um indício de que já então existiria a tensão que, nos períodos seguintes, levou a graves conflitos entre a população e a Sé, e que ao longo de toda a História nacional opôs o Porto ao Poder. Um dos factos mais significativos da evolução da capital do Norte é que nunca tenha sido permitido aos reis de Portugal edificar ali uma casa para morar.

 

Estas origens condizem e, até certo ponto, explicam o destino histórico da cidade, que foi sempre de resistência ao Poder e de luta pela liberdade. Para falar só nos tempos modernos, recordo que foi no Porto que:

 

-deflagrou a revolução de 1820, que implantou o regime liberal em Portugal.

-se fez revolução de 1828 -que tentou em vão impedir o regresso ao absolutismo.

-se instalou D. Pedro, fortemente apoiado pelas forças económicas da cidade.

-funcionou durante meses o governo da Patuleia, só vencido pela intervenção

estrangeira.

-eclodiu, em 1891, a primeira revolta republicana.

005.jpgAspecto do Porto no século passado

 

Nos tempos modernos, a cidade cresceu com a actividade económica nacional.

Povoados outrora distantes, como a Póvoa e Vila do Conde, são hoje grandes zonas residenciais do arrabalde portuense.

E quanto a Vila do Conde, continua por achar a resposta à inevitável pergunta: que conde foi esse? Não foi decerto o fundador pois a terra foi citânia céltica, castro romano, aldeia sueva e, então, não havia condes.

Admite-se, sem certeza alguma, que a terra foi dominada por algum barão astur-leonês, que tenha andado nas guerras da Reconquista. Dessa época nada resta. Vale a pena visitar os monumentos, aspirar o ar do estaleiro, descer o rio até à barra. Este vale do Ave é uma constante fascinação paisagística.

007.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

Guia Expresso das
Cidades e Vilas Históricas de Portugal

publicado por Elisabete às 16:59

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Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2016

HOMENAGEM A D. PEDRO V

PORTO.Hospital Militar 1.jpg

Apesar de já terem existido hospitais militares no Porto, uma infra-estrutura construída de raiz só foi autorizada por Carta Régia de 18 de Abril de 1854, por D. Fernando II, regente em nome do seu filho menor, o rei D. Pedro V.

O hospital está situado na Avenida da Boavista, a mais longa artéria portuense, com cerca de cinco quilómetros, que atravessa seis freguesias da cidade.

 

A construção do hospital, situado na parte inicial da avenida, foi iniciada em 1862, sendo baptizado em homenagem ao rei, falecido no ano anterior.

O Hospital Militar, denominado de D. Pedro V, ainda não estava concluído quando recebeu os primeiros doentes, em 1869.

Na sequência do golpe republicano de 1910, o hospital passou a designar-se por “Hospital Militar do Porto” e, aquando da reorganização do Exército, em 1926, passou a Hospital da 1ª Região Militar, com a designação de “Hospital Militar Regional nº 1”.

Em 1990, em homenagem ao seu fundador, o hospital voltou a incluir o nome de D. Pedro V”.

PORTO.Hospital Militar 2.jpg

No âmbito da criação do Hospital das Forças Armadas, ocorrida em 2009, está prevista a transformação do HMR1 no pólo do Porto daquele hospital, quando o mesmo for activado.

A Avenida da Boavista foi aberta em meados do século XIX, mas o último troço, entre a Fonte da Moura e o mar, só terminou em 1917.

Com cerca de cinco mil metros de extensão, esta artéria atravessa as freguesias de Cedofeita, Massarelos, Aldoar, Ramalde, Lordelo do Ouro e Nevogilde.

 

REVISTA VIVA (Junho 2013)

Texto: Marta Almeida Carvalho
Fotos: Virgínia Ferreira

 

publicado por Elisabete às 16:29

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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2016

LUGAR DE MEMÓRIAS

1.Convento de São Bento da Ave-Maria.Roda.jpg

O convento de S. Bento da Ave-Maria, no Porto, foi um edifício que albergou freiras beneditinas e que funcionou entre 1535 e 1892. Demolido no final do século XIX, por morte da última monja, no local onde existia foi construída a Estação de S. Bento, onde, em 1896, numa gare ainda provisória, entrou o primeiro comboio. Conta a lenda que, ainda hoje, se ouvem as rezas da monja a ecoar pelos corredores da estação.

2.Convento de São Bento da Ave-Maria.jpg

Em 1518, D. Manuel I, que no ano anterior outorgara foral à cidade do Porto, mandou construir, à custa da Fazenda, o Mosteiro da Ave-Maria ou da Encarnação das Monjas de S. Bento, dentro dos muros da cidade, no local chamado das Hortas do Bispo, em terrenos cedidos pelo bispo do Porto, D. Pedro da Costa, para que as religiosas se transferissem dos mosteiros rurais para as cidades.

Tendo como primeira abadessa, D. Maria de Melo, monja de Arouca e regedora do Mosteiro de Tarouquela, o convento iniciou a vida conventual em Janeiro de 1535, recolhendo as comunidades vindas dos mosteiros de S. Cristóvão de Rio Tinto, Salvador de Tuías, Salvador de Vila Cova das Donas (Sandim) e de Santa Maria de Tarouquela.

3.jpg

O projecto incluía também as monjas do Salvador de Vairão, mas estas recusaram a transferência, sendo que, mais tarde, recebeu ainda algumas freiras de um extinto mosteiro em Macieira de Sarnes.

Em 1596, de acordo com o estabelecido com a Congregação de S. Bento, dois terços dos rendimentos do Mosteiro de S. Martinho de Cucujães foram unidos ao de S. Bento.

Vários testemunhos referem-se ao convento como sendo “magnificente em termos decorativos”, onde terá predominado, inicialmente, o estilo manuelino. Assim, supõe-se que, quer a igreja anexa quer o convento, tenham sofrido diversas transformações ao longo dos anos, sendo as últimas motivadas por um incêndio que terá deflagrado em 1783.

Na altura da demolição, em 1901, da traça primitiva restava apenas um arco manuelino.

 

Liberalismo e extinção das ordens religiosas

Com a afirmação do Liberalismo, em inícios do século XIX, o futuro do convento ficara traçado.

De acordo com a Direcção Geral de Arquivos, em 1834, em 1834, no âmbito da “Reforma Eclesiástica” empreendida pelo ministro e secretário de Estado, Joaquim António de Aguiar, e executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837), por decreto de 30 de Maio, “foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e ordens religiosas”, ficando, o de S. Bento da Ave-Maria, sujeito ao respectivo bispo, até à morte da última freira, altura em que encerraria definitivamente, passando os seus bens para a esfera do Estado. Como esta terá falecido em 1892, ficaram as instalações devolutas a partir dessa altura, sendo que se contam várias histórias que relatam que, em certas noites, ainda era possível ouvir as rezas da monja a ecoar pelos corredores das alas da estação.

A demolição dos claustros iniciou-se em 1894 – dando lugar à gare provisória da estação que começou a funcionar em 1896 com a chagada do primeiro comboio – e a da igreja entre 1900 e 1901.

As ossadas das monjas foram recolhidas num túmulo mandado construir no cemitério do Prado do Repouso pela Câmara Municipal do Porto, em 1894.

Muito do seu espólio perdeu-se por altura da demolição, incluindo uma grande variedade de azulejos-tapete.

 

 “Ah, malditos reformadores!”

Frase célebre de Alexandre Herculano, que demonstrava bem a sua opinião sobre a destruição deste monumento.

4.Convento de São Bento da Ave-Maria.jpg

1896: inauguração da Linha Urbana do Porto

Numa altura em que o automóvel adquiria contornos de verdadeiro luxo, o comboio surgiu como uma excelente alternativa.

O mês de Novembro de 1877 iria mudar o panorama das ligações de caminho-de-ferro entre o Norte e o Sul do país – a inauguração da Ponte D. Maria I, sobre o Douro, aproximaria as cidades de Lisboa e Porto. 

A criação de uma estação, no centro da cidade, impunha-se, faltando apenas definir o local e, uma vez que o convento se encontrava em estado de degradação, a Câmara aprovou o projecto.

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Em Janeiro de 1888, a Direcção dos Caminhos-de-Ferro foi autorizada a estudar o prolongamento da linha de Campanhã até à Praça da Liberdade.

Assim se procedeu à abertura dos túneis da Quinta da China, do Monte do Seminário e das Fontainhas, cuja abertura ditou a demolição do mosteiro, dando lugar à construção de uma gare provisória, onde o primeiro comboio entraria em 7 de Novembro de 1896, estendendo, assim, a denominada Linha Urbana do Porto, já em funcionamento entre as estações das Devesas e de Campanhã.

O serviço dos comboios suburbanos portuense oferecia ligações frequentes a partir de S. Bento, que inicialmente funcionava num edifício bem menor até à construção do actual, da autoria do arquitecto Marques da Silva, inaugurado em 1916. 

Em 1897, a Companhia Real e os Caminhos-de-Ferro do Estado – Direcção do Minho e Douro, assinavam um contrato para a circulação dos comboios da Companhia Real entre S. Bento e Campanhã.

5.jpg

A Estação de S. Bento

O nome resultou da ocupação dos terrenos do convento. Nas obras para a sua construção, bem como na remodelação da zona envolvente, descobriu-se que, no subsolo da Praça de Almeida Garrett, circulava o rio da Vila que resulta da junção de dois ribeiros: um oriundo da Praça do Marquês, outro do Bolhão.

Em Agosto de 1915, foram colocados os painéis de azulejos na nova estação, num total de 551 metros quadrados, cada um representando uma cena da história nacional: o Torneio de Arcos de Valdevez, em 1140; a entrada triunfal de D. João I e o seu casamento com D. Filipa de Lencastre, no Porto em 1386; e a conquista de Ceuta, em 1415.

Nos outros encontram-se cenas e aspectos etnográficos de outros locais e, no alto das paredes, existe um friso multicolor, evocativo da história da viação nacional, desde os primórdios até à chegada do primeiro comboio a Braga.

As laterais do edifício, concebido em forma de U, dão para as ruas da Madeira e do Loureiro, e a fachada principal está virada para a Praça Almeida Garrett.

Pela Rua da Madeira, descia a Muralha Fernandina, vinda de Cimo de Vila, tendo a estação “dentro dos muros”. Ainda famosa pelas suas “tasquinhas”, foi local de comércio e de pequenas fábricas, onde se fixaram, também, muitos despachantes, a quem chamavam de recoveiros, que aceitavam mercadorias que transportavam em vagões alugados aos caminhos-de-ferro, para localidades ao longo das linhas do Douro e Minho. Aos paquetes e serviçais das empresas portuenses que utilizavam os seus serviços, pagavam “um copo e uma sandes” ou até “uma posta de sável” no “Quim”, no “Vizeu” ou no “Madeira”, nas imediações dos escritórios.

7.Estação de S. Bento.jpg

No interior, o edifício integra uma gare com oito linhas e cinco cais de armazenamento de mercadorias, cobertos por uma artística estrutura metálica.

A estação foi considerada uma das mais belas do mundo pela revista norte-americana Travel+Leisure.

Os painéis de azulejo de Jorge Colaço colocaram-na ao nível de outras gares ferroviárias famosas. Como a Gare du Nord, em Paris; e Atocha, em Madrid.

 

Texto de Marta Almeida Carvalho

REVISTA VIVA, Junho 2013

 

publicado por Elisabete às 15:48

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Segunda-feira, 28 de Novembro de 2016

HOMENAGENS DE D. PEDRO IV E DE D. MARIA II À CIDADE DO PORTO

Desembarque dos Liberais no Mindelo em 1832.jpg

O local escolhido para acolher o órgão real foi determinado por D. Maria II, filha de D. Pedro: o monarca assistia, regularmente, às missas da Igreja da Lapa, durante o Cerco do Porto, altura em que tinha o seu quartel-general em Cedofeita.

A Câmara do Porto ainda tentou que ficasse na Sé Catedral mas em vão.

O coração de D. Pedro embarcou no navio “Jorge IV”, a 3 de Fevereiro de 1835 e chegou ao Porto 4 dias depois.

De acordo com o historiador catedrático Francisco Ribeiro da Silva, no cortejo que acompanhou o percurso feito pelo órgão real, desde a Ribeira, onde desembarcou, até à Lapa, estiveram presentes cerca de 12 mil pessoas.

O transporte, quer durante a viagem desde a capital, quer entre a Ribeira e a Lapa, foi feito com toda a pompa e circunstância, tendo sido acompanhado por militares que foram, posteriormente, condecorados por isso.

Capela de N.Srª da Lapa das Confissões.jpg

Depois do coração de D. Pedro ter vindo para a cidade do Porto por sua própria vontade, expressa na véspera da sua morte, a rainha D. Maria II, num acto de reconhecimento para com a cidade e as suas gentes, que se mantiveram fiéis aos ideais liberais do pai, atribuiu-lhe a Grã-Cruz da Torre e Espada, o epíteto de “Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto” e o título ducal, elementos que, a partir de então, passaram a integrar o brasão da cidade. Com a atribuição do título ducal, decretou que o segundo filho ou filha dos reis de Portugal tivesse o título de Duque ou Duquesa do Porto.

Em 1940, por ordem do governo de Salazar, o dragão e a coroa ducal foram retirados do brasão da cidade.

publicado por Elisabete às 14:46

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Quarta-feira, 19 de Outubro de 2016

PORTO Desaparecido: CAFÉ ÀGUIA D'OURO

Café Aguia d'Ouro.Carnaval de 1905  -  edificio d

O Café Águia D'Ouro abriu as suas portas no primeiro mês de 1839. Por lá passaram algumas figuras portuguesas ilustres como Camilo Castelo Branco e Antero de Quental.

No Teatro, com entrada lateral ao café, passaram também outros artistas.

Em 1908, esta velha casa abre-se também ao cinema. A novidade era o “cronomegaphone”, considerado “o mais moderno aperfeiçoamento do cinematógrafo falante”, não sendo cinema sonoro, já que este só apareceu 20 anos mais tarde. Ainda em Agosto de 1907, chegará a estrear o “Cynematographo Edison”, sendo o espectáculo dividido em três partes e visto com um só bilhete. Os preços, para a altura, eram bastantes económicos. Cadeiras 100 réis e galerias a 50 réis.

Em 15 de Setembro de 1930, viria a inaugurar-se o cinema sonoro com o filme “All That Jazz”, com Al Joson.

O Águia seria, então, uma das melhores salas do Porto.

Em 7 de Fevereiro de 1931, foi reaberto, após obras de remodelação, tendo ficado com uma nova fachada, a actual, e sustentando no seu pórtico o símbolo do seu nome, uma Águia de Ouro.

Fechou as portas em 1989.

publicado por Elisabete às 19:42

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Sábado, 13 de Agosto de 2016

A HISTÓRIA E O VALOR DO CEMITÉRIO DA LAPA

1.Cemitério da Lapa.JPG

Em 1833, o dramático Cerco do Porto e a subsequente epidemia de cólera rapidamente lotaram os locais ancestrais de enterramento, situados no interior das igrejas portuenses.

Perante este cenário, a Mesa da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa pediu a D. Pedro IV que autorizasse a construção de um cemitério privativo exterior à sua igreja.

Não se pretendia um mero terreno temporário para sepulturas: todo o processo indicia que, já em 1833, a Irmandade da Lapa pretendia um cemitério convenientemente murado, enobrecido com portal, com locais próprios para construção de monumentos. Por isso, pode considerar-se o Cemitério da Lapa como o mais antigo cemitério romântico criado em Portugal, mesmo não sendo público. A sua criação oficial foi, aliás, anterior ao decreto de 1835, que instituiu os cemitérios públicos. Porém, como situação de transição, foi necessário construir um cemitério interino, por detrás da capela-mor da Igreja da Lapa.


5.Cemitério da Lapa.JPG

O Cemitério da Lapa propriamente dito, só foi oficialmente benzido no Verão de 1838.

Os cemitérios românticos foram concebidos como espaços arruados e ajardinados, com belos monumentos (derradeiros símbolos de saudade dos entes queridos), locais de meditação na fugacidade da vida, dentro da mentalidade de então.

Actualmente, os mais importantes cemitérios europeus do século XIX são encarados como museus. De facto, nestas “cidades dos mortos” em miniatura, os vários monumentos espelham, não só um passado de memórias familiares, como também o desejo de ostentação, as mentalidades e os símbolos de toda uma época.

Por outro lado, estas “galerias de ilustres”, são também repositórios de algumas das melhores obras de arte do período romântico, sobretudo em arquitectura, escultura e artes aplicadas (ferro e cerâmica).

2.Cemitério da Lapa.JPG

O Cemitério da Lapa é o mais importante “museu da morte” do Norte de Portugal.

Aqui foram erigidos alguns dos primeiros monumentos funerários românticos de Portugal, a partir de 1839.

Durante décadas, estes monumentos –os mais faustosos da cidade do Porto- foram fonte de inspiração para todos os outros cemitérios do Norte do país.

De facto, a Lapa era o cemitério da elite portuense.

Porém, foi tal a quantidade de notáveis que ali pretendiam ter um jazigo próprio que o cemitério se tornou, rapidamente, demasiado pequeno.

O primitivo cemitério, que correspondia às actuais secções de 1 a 8 e à secção lateral Poente das capelas monumentais, foi ampliado apenas duas décadas depois de ter sido aberto! Foi construída uma outra secção lateral para as capelas monumentais, a Nascente, bem como uma nova divisão, a cota mais elevada (a divisão 2, dividida nas secções 11 e 12).

Mas, mesmo assim, em poucos anos estas novas secções ficaram preenchidas de monumentos.

Duas décadas depois, novamente necessário alargar o Cemitério da Lapa, para Sul (as actuais secções 9 e 10) e para Poente (a divisão 3).

Em 1874, foram dadas como concluídas estas obras de ampliação e colocada a cruz que se encontra ao cimo da escadaria da entrada. A partir de então, o cemitério não pôde ser mais alargado: todo o terreno disponível da cerca da Lapa já tinha sido ocupado e esta estava encravada num pequeno quarteirão.

4.Cemitério da Lapa.JPG

 

3.Cemitério da Lapa.JPG

 

 

publicado por Elisabete às 16:52

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Terça-feira, 30 de Junho de 2015

1967 - FÉ DE PEDRA

001.jpg

A França, onde o Sagrado Coração de Jesus se manifestou, foram os do Porto buscar o começo de uma nova igreja

Uma pedra será mais do que isso, mero bloco granítico a partir do qual se constrói a casa, seja esta dos homens ou da divindade. Uma pedra pode remeter-nos à penitência de Sísifo, condenado a repetidamente levar o mesmo monolito ao cume da mesma montanha, mas pode também lembrar-nos a fé dos de há quase cinquenta anos, que do Porto foram a França buscar o alicerce basilar da sua igreja. A pedra que aqui mostramos, primeira de um moderno templo que viria a representar, na Invicta, novo paradigma da arquitectura religiosa assinado pelo arquitecto Luís Cunha, que poucos anos depois teria nova expressão na Igreja Paroquial de Cedofeita, assinada por Eugénio Alves de Sousa. Mas a primeira pedra da nova igreja do Carvalhido, que é dessa que aqui falámos, é mais do que um fragmento de arquitectura, antes foi uma expressão de fé. Consagrado ao Sagrado Coração de Jesus o templo, à localidade de Paray-le-Monial foram peregrinos, em 1966, buscar o bloco que aqui vemos, um ano depois, na cerimónia simbólica de arranque da construção. Porque naquela distante terra se acredita que Cristo apareceu de peito aberto a Margarida Maria Alacoque, que viveu no século XVII e é santa desde 1920. Num pedaço de granito, "o coração que tanto amou os homens", como se acredita que Cristo disse à vidente, mas também a perseverança dos que quiseram dar à sua casa de oração uma essência de divindade. Foi em Junho de 1967 que, como noticiava o JORNAL DE NOTÍCIAS, "as principais autoridades civis e militares" do Porto assistiram à bênção da pedra, protagonizada pelo bispo Florentino de Andrade Silva, administrador apostólico da dioceses. O bispo diocesano, D. António Ferreira Gomes, afrontara Oliveira Salazar e vivia no exílio, em Espanha e França, desde 1959. Só regressaria dois anos depois desta cerimónia, beneficiando da relativa abertura a que se chamou "primavera marcelista", ainda a tempo de assistir ao final da construção da igreja do Carvalhido.

Igreja_Carvalhido_nova_(Porto).JPG

A nova Igreja do Carvalhido

 

publicado por Elisabete às 21:34

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Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

25 de Abril SEMPRE!

publicado por Elisabete às 01:31

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Sexta-feira, 12 de Outubro de 2007

O fim

Porto, 12 de Outubro de 2007

 

Não. Não deixei de amar o Porto e todo o conteúdo deste blogue foi transferido, apenas por motivos técnicos, para o AMAR O PORTO +.

É aí que vou continuar. Aqui fica o endereço:

 

http://amaroporto2.blogs.sapo.pt

 

Até sempre!

publicado por Elisabete às 19:51

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